25 November 2015 @ 12:05 pm
 

 

 

–Gregor, você se lembra qual foi a última vez que fomos a ópera? Parece ter tanto tempo… por que deixamos de ir?

Gregor sorriu meio encabulado por eu invadir sua conversa sobre rede ferroviária e carvão sem pedir os devidos modos que a etiqueta previa.

–Querida… – começou ele colocando a mão sobre as minhas enluvadas. –Agora não. Estamos falando de negócios. – ele deu uma gargalhada e os outros patéticos homens a mesa fizeram coro.

–Tente se lembrar. – peguei um cigarro e coloquei em minha piteira. –Estou tendo uma epifania agora…

–Claro que está, querida. – disse ele sarcasticamente. O ignorei e continuei com a minha explicação.

–Quando foi a ultima vez que fizemos alguma coisa que costumava ser rotineiro, mas que por alguma razão deixamos de fazer?

Gregor acendeu meu cigarro com um sorriso amarelo e se aproximou do meu ouvido para me falar em segredo.

–Violet, podemos conversar depois sobre isso? É um pouco sério o que eu estou tratando. Por favor…

Assenti com o repuxar do meu rosto em um sorriso pouco conformado. Toquei um lado do rosto de Gregor e voltei para sua mão.

–Claro querido. Eu entendo. – traguei meu cigarro. –Poderiam me dar licença? – dirigi-me a todos a mesa. Eles assentiram.

–Te vejo no gramado, querida.

Assenti e dei outro trago.

 

Andei em direção ao gramado da frente da mansão do Sr. Alastair Kosloski, um cavalheiro muito educado e cortês, além de muito rico, que estava construindo uma estrada de só-Deus-sabe até Deus-me-livre. – Provavelmente ligando os Estados Unidos à Timbuctu.

Passei pela porta, desci os degraus da varanda e depois do trecho destinado aos carros, pisei na grama verde. Traguei mais uma vez e olhei para a mansão. Poderia ser a última vez que estava indo a uma festa na casa do Sr. Kosloski, com todas as luzes que iluminavam toda a fachada e o jazz animado que saía de seu interior.

Deixei o gramado e andei até o balcão de mármore que proporcionava a mais bela vista ao mar, que batia suas ondas no rochedo onde a mansão fora construída.

Ao pensar sobre todas as coisas que disse adeus, mas que não me despedi de verdade, apenas por não saber que seria a última vez que viveria tal momento, acabei por me distrair tanto, que não percebi a chegada de um cavalheiro.

Ele estava em silêncio, embora fosse isso que ressoava por cima da música alta. Suas mãos estavam enterradas nos bolsos e seu cabelos se moviam como o vento queria.

Olhei para o mar, respirei fundo.

–Acha que daqui cinquenta anos esta festa será lembrada por alguém? – disse o cavalheiro encarando o mar.

Olhei para os lados, procurando com quem ele falava, mas o fato era que apenas eu estava por perto.

–Perdão?

Ele me olhou com um sorriso calmo e amigável.

–Acha que daqui cinquenta anos esta festa será lembrada por alguém? – ele repetiu.

–Na verdade não. – disse.

–Então não há um real motivo para ela, não acha?

–Festas não precisam ter motivos aparentes para serem organizadas. – disse mirando a mansão e as pessoas embriagados na varanda.

Ele não falou nada por alguns segundo, mas que pareceram minutos.

–Você sinceramente não acha que há motivo para festas? – ele me perguntou.

–Acho que há muitos, mas não acho que obrigatoriamente tenha que haver.

Ele sorriu.

–De onde você é? – perguntou ele.

–Alabama. Você?

–New Orleans. – ele respondeu. –Já parou para pensar, Srt…

–Violet. Apenas Violet.

Ele sorriu novamente.

–Já parou para pensar, Violet, que daqui cinquenta, ou menos, trinta anos, tudo o que conhecemos mal estará registrado em livros? – não saberia dizer se realmente havia uma pergunta em sua frase. Me parecia mais que ele estava falando consigo e não comigo.

–Não… Na verdade nunca pensei… – até aquele momento realmente não havia pensado naquilo.

Deixei minha mente vagar para o que ele tinha dito.

–Me diga, minha cara, já se perguntou quando alguma coisa que você ama começou a morrer? Pense. – havia uma pausa pequena em sua fala. –Pois veja, é evidente que tudo morre, mas você só percebe que morre quando as coisas entram em coma e caminham para o infinito. Dessa forma, veja se concorda, nem sempre é possível se dar conta e de repente, você nunca mais vê ou faz alguma coisa, porque elas simplesmente morreram e estão enterradas no passado, debaixo de sete palmos de outras lembranças tão mortas quanto. -disse ele.

Olhei para ele com estranhamento. Não pelo o que havia falado, mas sim por que ele colocara em palavras minha epifania de mais cedo.

–Mas se as lembranças forem constantemente recordadas? – retruquei. –Digo, e se o passado for mantido na memória?

–Ora, minha querida, então não haveria novas lembranças para serem enterradas. – disse ele com um sorriso dolorido. –O passado seria o presente e esta não é a ordem natural das coisas.

Alguns segundos se passaram antes de eu conseguir responder novamente.

–Mas… você acha que o passado é para ser esquecido, então?

Ele pensou antes de responder, mirou o mar brevemente e voltou a me olhar.

–O passado é para ser recordado com cautela, se não é fácil se perder em lembranças decompostas por efeito do tempo. – ele sorriu. –Isso pode lhe levar a loucura, minha cara.

Balancei a cabeça concordando. Fazia sentido, mas ainda incomodava. O passado, para mim, era a melhor parte de se viver e, só de pensar que deveria ter cautela ao visitar minhas lembranças, me deixava desanimada.

Respirei fundo.

–Você gostaria de dançar? – o cavalheiro estendeu a mão para mim, muito cordial. Sorri e assenti aceitando o convite quando toquei em sua mão.

Ouvi uma música de partitura antiga ressoar pelas janelas da mansão. Dançamos sem falar nada, mas não era um silêncio constrangedor. O silêncio cabia, era confortável e parecia melhor do que uma conversa sem importância.

Me dei conta que não sabia o nome dele e quando o olhei, não me importei muito.

–Tem algo a dizer, Violet?

–Não exatamente.

Ele sorriu.

–Mesmo?

Hesitei.

–Bom, me pergunto qual poderia ser seu nome… – ele desmanchou o sorriso largo mostrando os dentes brancos e impecáveis, mas manteve um sorriso de lábios fechados.

Confesso que esperei que ele dissesse seu nome, mas apenas continuamos a dançar até o final daquela música e de uma nova.

–Senhor, o Sr. Cosby está a sua espera no salão principal. – disse um dos mordomos do Sr. Kosloski.

Nos separamos na primeira palavra do mordomo, mas eu não conseguia parar de olhar para ele.

–Obrigado, Tom. – seus olhos também estavam em mim.

O mordomo saiu e ainda nos encarávamos.

Ele respirou fundo e deu um passo em minha direção.

–Querida Violet, – ele pegou minha mão. – Obrigado pela dança, mas principalmente, obrigado pela conversa. – ele sorriu. –Sou muito grato por tê-la encontrado.

Assenti feliz, mas um pouco inconformada pela sua ida tão prematura.

–Espero encontrar-lhe novamente em breve. – disse ele antes de beijar as costas da minha mão esquerda.

-Será de meu agrado encontra-lo novamente. – disse. – Para que hoje não seja apenas mais alguma lembrança enterrada à sete palmos no meu cemitério de lembranças.

Ele sorriu.

–Melhor ser enterrado que deixar a cova aberta, minha cara. – disse ele antes de beijar minha mão pela segunda vez.

Ele deu as costas e subiu as escadas, sumindo no salão abarrotado de pessoas.

Sentei no banco com as almofadas e comecei a jogar terra, bem devagarinho, na sepultura recém aberta. “Aqui jaz uma bela noite na casa do Sr. Kosloski”. Pensei.

 

–Violet! Querida! Vamos? Já chamei o motorista. – disse Gregor segurando as luvas em uma das mãos.

Levantei-me lentamente, pegando o cigarro em minha bolsa. O acendi antes de subir as escadas e traguei.

Cheguei perto de Gregor e ele pôs a mão em minha cintura.

–Como foi a conversa de negócios? – perguntei-lhe com ironia, sem realmente querer saber.

–Realmente muito boa e…

–Gregor?

–Sim, querida?

–Apenas ligue o carro, sim?

 

 

Este conto é dedicado a Jessica Vargas pelo seu aniversário que foi (quase) esses dias e eu furei no dia da comemoração porque estava presa no Irajá

Feliz aniversário, Jessica (Kika) Vargas.

 Preferia muito mais estar ao seu lado do que estar no Irajá.

 

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