
–Gregor, você se lembra qual foi a última vez que fomos a ópera? Parece ter tanto tempo… por que deixamos de ir?
Gregor sorriu meio encabulado por eu invadir sua conversa sobre rede ferroviária e carvão sem pedir os devidos modos que a etiqueta previa.
–Querida… – começou ele colocando a mão sobre as minhas enluvadas. –Agora não. Estamos falando de negócios. – ele deu uma gargalhada e os outros patéticos homens a mesa fizeram coro.
–Tente se lembrar. – peguei um cigarro e coloquei em minha piteira. –Estou tendo uma epifania agora…
–Claro que está, querida. – disse ele sarcasticamente. O ignorei e continuei com a minha explicação.
–Quando foi a ultima vez que fizemos alguma coisa que costumava ser rotineiro, mas que por alguma razão deixamos de fazer?
Gregor acendeu meu cigarro com um sorriso amarelo e se aproximou do meu ouvido para me falar em segredo.
–Violet, podemos conversar depois sobre isso? É um pouco sério o que eu estou tratando. Por favor…
Assenti com o repuxar do meu rosto em um sorriso pouco conformado. Toquei um lado do rosto de Gregor e voltei para sua mão.
–Claro querido. Eu entendo. – traguei meu cigarro. –Poderiam me dar licença? – dirigi-me a todos a mesa. Eles assentiram.
–Te vejo no gramado, querida.
Assenti e dei outro trago.
Andei em direção ao gramado da frente da mansão do Sr. Alastair Kosloski, um cavalheiro muito educado e cortês, além de muito rico, que estava construindo uma estrada de só-Deus-sabe até Deus-me-livre. – Provavelmente ligando os Estados Unidos à Timbuctu.
Passei pela porta, desci os degraus da varanda e depois do trecho destinado aos carros, pisei na grama verde. Traguei mais uma vez e olhei para a mansão. Poderia ser a última vez que estava indo a uma festa na casa do Sr. Kosloski, com todas as luzes que iluminavam toda a fachada e o jazz animado que saía de seu interior.
Deixei o gramado e andei até o balcão de mármore que proporcionava a mais bela vista ao mar, que batia suas ondas no rochedo onde a mansão fora construída.
Ao pensar sobre todas as coisas que disse adeus, mas que não me despedi de verdade, apenas por não saber que seria a última vez que viveria tal momento, acabei por me distrair tanto, que não percebi a chegada de um cavalheiro.
Ele estava em silêncio, embora fosse isso que ressoava por cima da música alta. Suas mãos estavam enterradas nos bolsos e seu cabelos se moviam como o vento queria.
Olhei para o mar, respirei fundo.
–Acha que daqui cinquenta anos esta festa será lembrada por alguém? – disse o cavalheiro encarando o mar.
Olhei para os lados, procurando com quem ele falava, mas o fato era que apenas eu estava por perto.
–Perdão?
Ele me olhou com um sorriso calmo e amigável.
–Acha que daqui cinquenta anos esta festa será lembrada por alguém? – ele repetiu.
–Na verdade não. – disse.
–Então não há um real motivo para ela, não acha?
–Festas não precisam ter motivos aparentes para serem organizadas. – disse mirando a mansão e as pessoas embriagados na varanda.
Ele não falou nada por alguns segundo, mas que pareceram minutos.
–Você sinceramente não acha que há motivo para festas? – ele me perguntou.
–Acho que há muitos, mas não acho que obrigatoriamente tenha que haver.
Ele sorriu.
–De onde você é? – perguntou ele.
–Alabama. Você?
–New Orleans. – ele respondeu. –Já parou para pensar, Srt…
–Violet. Apenas Violet.
Ele sorriu novamente.
–Já parou para pensar, Violet, que daqui cinquenta, ou menos, trinta anos, tudo o que conhecemos mal estará registrado em livros? – não saberia dizer se realmente havia uma pergunta em sua frase. Me parecia mais que ele estava falando consigo e não comigo.
–Não… Na verdade nunca pensei… – até aquele momento realmente não havia pensado naquilo.
Deixei minha mente vagar para o que ele tinha dito.
–Me diga, minha cara, já se perguntou quando alguma coisa que você ama começou a morrer? Pense. – havia uma pausa pequena em sua fala. –Pois veja, é evidente que tudo morre, mas você só percebe que morre quando as coisas entram em coma e caminham para o infinito. Dessa forma, veja se concorda, nem sempre é possível se dar conta e de repente, você nunca mais vê ou faz alguma coisa, porque elas simplesmente morreram e estão enterradas no passado, debaixo de sete palmos de outras lembranças tão mortas quanto. -disse ele.
Olhei para ele com estranhamento. Não pelo o que havia falado, mas sim por que ele colocara em palavras minha epifania de mais cedo.
–Mas se as lembranças forem constantemente recordadas? – retruquei. –Digo, e se o passado for mantido na memória?
–Ora, minha querida, então não haveria novas lembranças para serem enterradas. – disse ele com um sorriso dolorido. –O passado seria o presente e esta não é a ordem natural das coisas.
Alguns segundos se passaram antes de eu conseguir responder novamente.
–Mas… você acha que o passado é para ser esquecido, então?
Ele pensou antes de responder, mirou o mar brevemente e voltou a me olhar.
–O passado é para ser recordado com cautela, se não é fácil se perder em lembranças decompostas por efeito do tempo. – ele sorriu. –Isso pode lhe levar a loucura, minha cara.
Balancei a cabeça concordando. Fazia sentido, mas ainda incomodava. O passado, para mim, era a melhor parte de se viver e, só de pensar que deveria ter cautela ao visitar minhas lembranças, me deixava desanimada.
Respirei fundo.
–Você gostaria de dançar? – o cavalheiro estendeu a mão para mim, muito cordial. Sorri e assenti aceitando o convite quando toquei em sua mão.
Ouvi uma música de partitura antiga ressoar pelas janelas da mansão. Dançamos sem falar nada, mas não era um silêncio constrangedor. O silêncio cabia, era confortável e parecia melhor do que uma conversa sem importância.
Me dei conta que não sabia o nome dele e quando o olhei, não me importei muito.
–Tem algo a dizer, Violet?
–Não exatamente.
Ele sorriu.
–Mesmo?
Hesitei.
–Bom, me pergunto qual poderia ser seu nome… – ele desmanchou o sorriso largo mostrando os dentes brancos e impecáveis, mas manteve um sorriso de lábios fechados.
Confesso que esperei que ele dissesse seu nome, mas apenas continuamos a dançar até o final daquela música e de uma nova.
–Senhor, o Sr. Cosby está a sua espera no salão principal. – disse um dos mordomos do Sr. Kosloski.
Nos separamos na primeira palavra do mordomo, mas eu não conseguia parar de olhar para ele.
–Obrigado, Tom. – seus olhos também estavam em mim.
O mordomo saiu e ainda nos encarávamos.
Ele respirou fundo e deu um passo em minha direção.
–Querida Violet, – ele pegou minha mão. – Obrigado pela dança, mas principalmente, obrigado pela conversa. – ele sorriu. –Sou muito grato por tê-la encontrado.
Assenti feliz, mas um pouco inconformada pela sua ida tão prematura.
–Espero encontrar-lhe novamente em breve. – disse ele antes de beijar as costas da minha mão esquerda.
-Será de meu agrado encontra-lo novamente. – disse. – Para que hoje não seja apenas mais alguma lembrança enterrada à sete palmos no meu cemitério de lembranças.
Ele sorriu.
–Melhor ser enterrado que deixar a cova aberta, minha cara. – disse ele antes de beijar minha mão pela segunda vez.
Ele deu as costas e subiu as escadas, sumindo no salão abarrotado de pessoas.
Sentei no banco com as almofadas e comecei a jogar terra, bem devagarinho, na sepultura recém aberta. “Aqui jaz uma bela noite na casa do Sr. Kosloski”. Pensei.
–Violet! Querida! Vamos? Já chamei o motorista. – disse Gregor segurando as luvas em uma das mãos.
Levantei-me lentamente, pegando o cigarro em minha bolsa. O acendi antes de subir as escadas e traguei.
Cheguei perto de Gregor e ele pôs a mão em minha cintura.
–Como foi a conversa de negócios? – perguntei-lhe com ironia, sem realmente querer saber.
–Realmente muito boa e…
–Gregor?
–Sim, querida?
–Apenas ligue o carro, sim?

Este conto é dedicado a Jessica Vargas pelo seu aniversário que foi (quase) esses dias e eu furei no dia da comemoração porque estava presa no Irajá
Feliz aniversário, Jessica (Kika) Vargas.
Preferia muito mais estar ao seu lado do que estar no Irajá.