Como se estivesse acordado, podia sentir tudo, menos no que minha pele encostava. Minhas pernas se moviam querendo sair e andar, mas queriam ir sem mim. Meus braços fracos jogavam meu tronco para fora da cama e voltavam a ter menos funcionalidade do que o torço.
Balancei as chinelas e elas caíram. Tive que convencer as pernas que eu precisava pega-las. Nada elas fizeram. "Vamos! Só to pedindo isto!" E de volta obtive uma resposta do ranger dos joelhos sem vontade alguma de se esticar.
O que era para ser uma busca as chinelas azuis-marinho de seda, virou passeio ao gramado encima de uma cadeira de rodas. Meu corpo não me levava em a lugar algum mais. Eu simplesmente não entendia. Quando que meu corpo parou de me ajudar a andar?
Vaguei por aí, vaguei com os olhos. Tinha tido um sonho estranho enquanto via minha senhora podar o jardim: Eu andava normalmente pelo Rio, entrava na Colombo e pedia um Moraes à moda-da-casa. Mas aí o chorinho por de trás do balcão foi ficando murcho, assim como todas as outras coisas que estavam a volta, então olhava para minhas pernas e falava: "me levem para onde forem, por favor!" E mesmo com a minha súplica, as pernas foram andando, me deixando para trás, sozinho, observando-as ir.
"Ora, seus abutres," praguejei. "Não é a primeira vez que vão e nem avisam." Estava com raiva e magoado. "Espero que morram de frio, seus inúteis!" Como puderam?! "Ninguém há de querê-las! Não são mais como antes. Não funcionam mais como quando era jovem." Minha voz de pigarro, tremula de frio e deteriorada pelo cigarro, fizeram e eco.
Acordei com um susto e alisei meus joelhos.
"Vocês não vão embora, vão?" Toci. "Vamos morrer juntos, meu velho. E vamos para onde você me levar, certo? Como sempre foi. É bem bonito aqui. Queria que os outros não tivessem ido embora há tanto tempo."
E tocou o chorinho e murchou de novo como todo o resto.

Balancei as chinelas e elas caíram. Tive que convencer as pernas que eu precisava pega-las. Nada elas fizeram. "Vamos! Só to pedindo isto!" E de volta obtive uma resposta do ranger dos joelhos sem vontade alguma de se esticar.
O que era para ser uma busca as chinelas azuis-marinho de seda, virou passeio ao gramado encima de uma cadeira de rodas. Meu corpo não me levava em a lugar algum mais. Eu simplesmente não entendia. Quando que meu corpo parou de me ajudar a andar?
Vaguei por aí, vaguei com os olhos. Tinha tido um sonho estranho enquanto via minha senhora podar o jardim: Eu andava normalmente pelo Rio, entrava na Colombo e pedia um Moraes à moda-da-casa. Mas aí o chorinho por de trás do balcão foi ficando murcho, assim como todas as outras coisas que estavam a volta, então olhava para minhas pernas e falava: "me levem para onde forem, por favor!" E mesmo com a minha súplica, as pernas foram andando, me deixando para trás, sozinho, observando-as ir.
"Ora, seus abutres," praguejei. "Não é a primeira vez que vão e nem avisam." Estava com raiva e magoado. "Espero que morram de frio, seus inúteis!" Como puderam?! "Ninguém há de querê-las! Não são mais como antes. Não funcionam mais como quando era jovem." Minha voz de pigarro, tremula de frio e deteriorada pelo cigarro, fizeram e eco.
Acordei com um susto e alisei meus joelhos.
"Vocês não vão embora, vão?" Toci. "Vamos morrer juntos, meu velho. E vamos para onde você me levar, certo? Como sempre foi. É bem bonito aqui. Queria que os outros não tivessem ido embora há tanto tempo."
E tocou o chorinho e murchou de novo como todo o resto.

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