Como seria os seus relatos no final do dia de você mesmo?

Arrotar café depois de uma garrafa e meia é o máximo que o meu corpo podia me dizer: “se você colocar para dentro outra quantidade angustiante desse líquido amargo e doce, eu não vou ser gentil outra vez.”
Certo, vou parar. Depois desse último eu paro. Prometo.
Trocara o álcool pelo café, só porque precisava ficar acordado, não porque achava melhor.
Prometi a mim mesmo que não procuraria você de novo. Suas complicações e seus “depois eu te procuro, estou ocupada agora” …
A cada maldito livro que eu leio tem, pelo menos, um capítulo que me lembra você. Você sabe que ler é mais que um hábito para mim, não consigo parar, é quase a mesma proporção de café ultimamente.
Não pretendo te ligar, mesmo que você tenha falado que eu posso fazê-lo quando precisar ou der vontade. Principalmente porque toda vez que te liguei porque tive vontade ou precisei, você me mandou ligar depois.
Outro dia mesmo uma garota me ligou: “Passa aqui em casa! Comprei sua bebida preferida.” Estava tão entediado e com um acervo de etílicos tão baixa que eu fui. Ela não se parece com você nem um pouco. Ela odeia as jujubas amarelas.
Tentei várias estratégias para parar de pensar em você. De ‘War’ a jogo de xadrez. Inutilmente tentei. Tentei fazer contas e até aprender a cozinhar e falar mandarim; adivinhe. Tentei escrever também, mas todas as vezes que tinha boas ideias e ótimos diálogos entre eu e meus outros “eus”, estava em algum meio de transporte, ou no chuveiro, ou somente quando não podia escrevê-las.
Hoje de manhã voltei à livraria, aquela do centro, ao lado da loja de CD’s. Procurei um livro que você pudesse não gostar; daqueles amarelados, de palavras complicadas e literatura arcaica. Era muito bom. Comprei mais dois do mesmo autor e me senti um pouco melhor por gostar de alguma coisa que você detesta.
Estava no consultório e entrou uma daquelas pacientes que eu atendo desde que comecei como acadêmico e ela me perguntou de você. Disse que estava bem, então ela me deu um ursinho laranja para te entregar. Passei na hora do seu plantão e o deixei com a Aninha, achei que ela ficaria mais feliz do que você.
Você costumava dizer que eu deveria ler roteiros, de tanto que gosto de filmes. Parei de assistir a grande maioria daqueles que eu sabia que você ficaria animada para ver também e agora assisto aqueles que você se irritaria, acompanhado de comida chinesa, porque eu sei que você tem nojo.

O que eu posso te falar é que depois de todos esses quase oito meses que você me mandou para o inferno, eu ainda estou o mesmo: com as mesmas preferências, ironias, sarcasmos, risada em pigarro e relógio no pulso. Não gosto de falar no telefone ainda, mas tenho uma amiga que rouba meu celular quase todos os dias e escreve recadinhos no bloco de notas me lembrando que eu vou esquecer. Ainda cultuo o Gin e o Whisky: leais amigos; mas minha barba cresceu e tem mais livros na sala que no meu quarto agora.
Sou um ótimo jogador de xadrez, o melhor da pracinha que o Seu Osvaldo frequenta; e quando falo que vou jogar com os amiguinhos da minha irmã de 12 anos algum jogo de estratégia, eles desistem na mesma hora; nem poker é tão divertido.
Nunca mais toquei no violão, mas tenho que afinar o piano, pelo menos, uma vez por semana. Aprendi a fumar, descer as escadas degrau por degrau e apreciar aquelas bandas que te davam dor de cabeça. Agora gasto muito dinheiro com gasolina e comida de entrega rápida e sou fluente em alemão: Mandarim era chato. Também desenvolvi outra úlcera por causa do café, mas não devo parar com ele.
Outro dia me peguei olhando para a janela que me mantinha seco enquanto achavam engraçado deixar Posseidom se divertir um pouquinho na antes terra seca; pensando em você. Achei graça por não lembrar de nós dois, mas só de você, como se um dia não tivesse sido “eu e você”.
Se eu dissesse que não gosto mais de você estaria mentindo, mas aprendi a fazer isso também.
