De todas as memórias que eu perdi, eu nunca imaginei que perderia justo as que mais guardara no fundo da gaveta da escrivaninha para que ninguém mexesse e elas não se espalhassem ou se perdessem atras de algum móvel difícil de empurrar.
Talvez tivesse sido melhor elas andarem por ai, esperar que voltassem com mais histórias para contar, sem muito apego e vivendo a deus-dará e de respiração profunda em cada esquina que dobrassem. Mas não. Preferi guardá-las todas juntinhas, amarradas em uma fita azul-turquesa; assim saberia sempre onde ficariam e poderia revê-las antes de dormir. Acho que foi esse o meu mal.
De tanto cativar, elas esfriaram, se tornaram indiferentes com o tempo e se despedaçaram. Talvez fosse a rebeldia da idade ou o sentimentalismo teimoso de uma super-proteção; quem sabe?
De qualquer forma, puxei o laço, afrouxando-o aos poucos e depois as deixei que fossem. Foram, foram, até que se foram de vez. Decidi por não esperar que voltem; Danos assim, são difíceis de serem reparados, ainda mais depois de tantas luas.
Inflei o peito e depois soltei o ar bem devagarinho. Fechei a gaveta, mas não passei a chave; vai que voltam qualquer hora e se enfiam lá de novo. Levantei e fui pegar um café antes de continuar a viver sem minhas preciosas memórias das quais mais tinha carinho.
