Me olhei no espelho depois do banho e notei mais uma ruga. Meu rosto estava sério, mas era possível ver as marcas no canto dos olhos e as dobras da testa.
Joguei agua no rosto, peguei a toalha, sequei o rosto e olhei no espelho novamente. Me vi sem as marcas dos meus trinta-e-poucos-quase-quarenta-anos. Me vi de cabelo raspado da época da marinha. Me vi de uniforme em terra firme, chegando em casa, abraçando a minha garota. Me vi indo ao bar, encontrando com meus amigos de adolescência. Me vi chegando em casa tarde da noite e a minha mãe no sofá, acompanhada do chá em mãos. Vi a mim mesmo com um dos joelhos no chão, pedindo a mulher da minha vida para casar comigo, e em seguida, eu estava deitado no tapete com uma garrada de whisky do lado depois de terminar o noivado. Me vi no enterro do meu melhor amigo e no hospital quando meu sobrinho nasceu.
Olhei para o meu rosto outra vez e vi as cicatrizes da minha vida nele.
Andei pelo corredor, cruzei a sala, olhei para o relogio no pulso. Coloquei minha blusa social e me olhei no espelho novamente. Meu estômago revirou, como tantas outras vezes.
Quando foi que o tempo havia passado? Quando que consegui minha primeira linha na testa sem que ela sumisse quando parasse de franzir? Quando que meu cabelo deixou de ter corte? Quando que parei de fazer a barba? Quando minhas olheiras foram expulsas pelas linhas nos cantos dos olhos? Quando que o meu presente virou meu passado e me tornou um homem irremediavelmente saudosista? Quando?
Respirei fundo depois de pegar as chaves do carro, a maleta e a carteira. No sinal vermelho, enfrente a praia, me peguei pensando na minha ultima missão como oficial da marinha e na cerimônia de honraria. Lembrei do melhor sexo da minha vida e do maior susto que ja tive duas semanas depois quando a garota estava com suspeitas de gravidez.
Dirigi quase que automaticamente ate o consultório. Olhei a lista de pacientes e pedi que o primeiro entrasse. Depois de quase vinte anos fazendo os mesmos procedimentos, desfrutei da vantagem da incapacidade do sujeito que estava em minha cadeira de falar e lembrei do meu primeiro paciente. Era uma mulher, com o dobro da idade da minha, se não mais.
Na hora do almoço, sentei no mesmo restaurante que ia havia três anos. Desenvolvi o hábito metódico de almoçar todos os dias no mesmo lugar, talvez porque tivesse medo disso me marcar épocas de vida como todas as outras coisas. Pedi o mesmo nhoque ao molho sugo de toda quarta feira e o mesmo sorvete de menta. Andei ate o consultório e quando o ultimo paciente foi embora e coloquei os instrumentos para esterilizar, quase pude ouvir a voz do meu melhor amigo entrando e pedindo um clareamento. Quase pude sentir o mesmo sentimento de arrependimento de ter gasto o material com ele ja que logo depois ele estragava tudo fumando dentro da sala, ou indo beber uma cerveja no bar da esquina. Só de lembrar que ele havia morrido havia seis anos, me fazia pensar no que tinha feito até agora sem ele e chegara a conclusão que não tinha feito quase nada. Não que antes havia dado ouvidos a ele, mas quando o vi no caixão e quando este se fechou para nunca mais se abrir e ir para de baixo da terra, aquele tinha sido o pior dia da minha vida. Sete vezes pior do que no dia que soube que minha ex noiva iria se casar.
Dirigi de volta para casa e lembrei da vez que sai de casa e quando fiquei tão bebado que acordei em outro estado no aeroporto internacional. Uma amiga foi me buscar e eu descobri que mais dois amigos estavam na mesma situação que eu. Nunca soubemos o que aconteceu na noite anterior. Acabei transado com esta mesma amiga uma vez e nunca mais a vi depois daquele dia. Não imaginava como ela estava, nem o que estava fazendo da vida e me senti péssimo por isso.
Deitei a cabeça no travesseiro e encarei o teto. Tinha acabado de sair do passado, tentando revive-lo o dia inteiro. Meus dias eram resumidos assim ultimamente. Era quase que um costume. Hábito este que começara há tanto tempo que não me lembrava mais. Comecei a pensar o que era o passado afinal. E senti um gosto amargo na boca quando me deparei que o passado é a morte do tempo onde tudo o que resta é reviver o tempo dentro da própria mente sem nunca andar para frente ou mais para trás ainda. E quando você está no presente, é como se o enterrasse mais um pouco.
Respirei fundo guardando todo o meu arrependimento. Me senti velho e cansado, tomado por todo o peso do passado nas costas. Fechei os olhos e depois de algumas horas, acordei no futuro.
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