08 April 2013 @ 02:29 am

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-O que você acha de Mathew?
-Não gosto.
-Porque não?
-Metade dos meninos do bairro se chamam Mathew.
-E a outra metade?
-John.
Escondi o sorriso, ouvi John rindo e a página do livro de nomes sendo virada. Continuei, calmamente, a mexer os ovos na panela, em frente ao fogão. Me adaptar com a barriga e os afazeres de casa ainda era um desafio em plena 22ª semana de gestação.
-O que você acha de Ted?
-Ted é nome de urso, querido.
-E Summer?
-Eu não vou colocar o nome do nosso filho de uma estação do ano, John. –disse colocando dois pratos de ovos mexidos na mesa de dois lugares.
-Certo. Já sei! -ele fez suspense enquanto eu colocava o café na mesa. –Joseph!
Olhei para John de esguelha e repuxei os lábios em uma careta.
-E se for menina? –perguntei calmamente enquanto me sentava a sua frente.
-Se for menina pode ser Anita.
-Anita é nome de revolucionária. –disse olhando-o de esguelha, tentando esconder a surpresa.
-É o mínimo que posso esperar de uma filha sua.
Sorri antes de espetar garfo nos ovos.

Aquele era o John: animado porque teria um pedaço seu sendo gerado pela a mulher que o amava tanto, que aposentou o batom vermelho que usava todos os dias desde o dia que o conhecera.
Mesmo com a guerra e toda a expectativa nula numa Inglaterra destruída, debaixo de escombros, sirenes e terra, John mantinha a farda impecavelmente limpa e engomada. Cabelo no lugar, sapato lustrado e as estrelas de herói no peito.

John se levantou e lavou os pratos como sempre fazia. Estava sorridente, perguntando sobre os nomes: Paul, William, Sophie, Alice, Julian, Catharine, Philipe, Donald, Coraline. Ele gostava de Atena. Dizia que era um nome grego e que era o nome da Deusa da sabedoria. Apolo era o deus da luz, ou algo assim.
-Querido, nosso filho não vai ter nome de deuses que não acreditamos. –disse.
-É só uma ideia. –ele sorria. –Gosto de Victoria e, que os homens não me ouçam, de Alexandra também.
-São dois nomes muito bonitos. –concordei. –Se for menino, pensei no nome do seu pai, George.
John se virou e sorriu.
-Pensei que não íamos usar nome de parentes próximos.
-Não íamos, mas seu pai lutou bravamente na guerra, acho que se fosse menino, ele iria gostar de ter nome de herói.
John sorriu emocionado.
-Eu devo ter feito algo de muito bom para terem me enviado você.
Sorri para ele.
Eram quase nove horas da manhã, quando o carro passou para buscá-lo. A sala há muito em desuso possuía uma camada fina de poeira que lembrava camarotes aristrocráticos de uma época antiga. Da sala, abrimos a porta da frente, deixando nossas pegadas no piso de madeira.
John me deu um beijo, colocou o cap de baixo do braço, e foi para o carro verde-musgo estacionado em frente a nossa casa, indo de encontro ao inimigo mais cedo ou mais tarde.
Fechei a porta só quando o carro virou a esquina e tentei visualizar meu marido voltando em dois meses para casa apenas com um corte de papel no dedo esquerdo. “Ele é um estrategista agora, não vai para o campo.” Pensei comigo mesma.
Quem eu queria enganar? Ele não ia querer que ninguém morresse em seu lugar. Mesmo com a promoção, não deixaria as trincheiras e nem seus amigos, como a rainha queria. Ahh não mesmo.
Se ele fosse egoísta e covarde, não seria o meu John, mas estaria vivo e estaria em casa. Como eu queria que ele fosse egoísta e covarde às vezes.

Breve aconteceria o baile de inverno que ninguém mais ia desde o início da guerra. Tempos difíceis aqueles. Racionamento de energia, comida e até de esperança, sonhos e futuros também.
O baile era a mais harmoniosa festa do condado e o mais esperado de Londres. Mas agora as pinturas se enfeiaram com a poeira e o papel de parede estava rasgado, assim como as cortinas. As janelas estavam quebradas, com cacos espatifados no salão e alguém tinha colocado madeiras nas portas altas. Em pensar que uma mulher russa estaria falando o mesmo do palácio imperial.
A vida de quem não ia para a guerra era o subsolo e um rádio. Sempre o rádio, o torturado rádio. Deixava-se comida, mas não o rádio. O radialista falando dos mísseis e os nomes dos feridos e seus substitutos.

Mais uma sirene irritando os meus ouvidos. Peguei o castiçal, o rádio e a pilha de livros em cima da mesa e desci as escadas, fechando o alçapão as minhas costas. Acendi a luz e olhei para o teto. Esperava o barulho, mas só tinha o meu silêncio. Abri o livro que estava lendo de um dramaturgo nacional e continuei a devorar si-la-ba por silaba com uma mão na barriga que lembrava uma melancia.

“Ser ou não ser, eis a questão.
O que é mais nobre? Sofrer na alma
As flechas da fortuna ultrajante
Ou pegar em armas contra um mar de dores
Pondo-lhes um fim? Morrer, dormir
Nada mais; e por via do sono pôr ponto final
Aos males do coração e aos mil acidentes naturais
De que a carne é herdeira, num desenlace
Devotadamente desejado. Morrer! Dormir; dormir
Dormir, sonhar talvez: mas aqui está o ponto de interrogação;
Porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos
Uma vez fora da confusão da vida?”

Bastante encorajador para esses dias de guerra. Eu as vezes me irritava com o meu próprio sarcasmo.
Reconhecia a beleza de cada linha e adorava esse Shakespeare que me fazia companhia à noite depois da sirene. John teria ciúmes se soubesse que me deito com ele e só o deixo quando a manhã chega e uma música da moda toca no rádio.

“Esse país desconhecido de cujos campos
Nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade
E nos faz suportar os males que temos
Em vez de voar para o que não conhecemos?
Assim a consciência nos faz a todos cobardes
E assim as cores nascentes da resolução
Empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento
E os planos de grande alcance e atualidade
Por via desta perspectiva mudam de sentido
E saem do reino da ação”

Ahh… um monólogo bárbaro, com certeza. Falante de dor e martírio. Me pergunto por que não lera antes. O que mais poderia falar esse Hamlet? O que mais podia sentir?
Virei a página. Decidira contar para John quando voltasse sobre esse Hamlet e sua esquizofrenia acreditada; também sobre essa sua vingança e esse seu desespero engasgado.
Poderia ser esse o mal desses generais e chefes do que eles dizem ser um Estado: Vingança.
Antes que pudesse começar as primeiras frases, o rádio começou a informar os nomes dos mortos.
Cory Brigt
Louis Bund
Kurt Campbell
Daniel Castillo
Harry Cole

Era uma lista quase sem fim toda noite.
E assim ia.

Denis Kyle
Orlando Lovegood
Dean Moody
Alasteir Montgomery
Andrew Thomas
Jason Williams

Mais uma noite.
Mais uma manhã.
Mais uma tarde.
Outra noite.

Mais uma noite.
Mais uma manhã.
Mais uma tarde.
Outra noite.

Além de Shakespeare, Jane Austen e Ellis Bell viera me visitar. Eles traziam uns amigos e todos me faziam companhia todas as noites durante miseráveis e solitários dois meses que John ficaria em campo, como eles disseram.
O relógio de bolso do pai do John tinha o barulho do tempo passando de forma arrastada. No canto do abrigo, imaginava o pedaço meu e de John dormindo satisfeito no berço feito com as madeiras de uma igreja bombardeada que o Sr. Jones roubara e me presenteara
Ah… Tão bondosos o Sr. e a Sra. Jones. Sempre traziam comida e se ofereciam para ajudar desde que minha barriga começara a aparecer. Eles eram um casal de velhinhos sem filhos que moravam na casa ao lado. Eles me ensinavam a recitar estrofes de poemas mais antigos e liam comigo todos os dias na hora do chá. Iam ao médico comigo e me emprestavam livros quando os meus voltavam para a prateleira. Tão bondosos…

Outra noite.
Outra manhã.
Outra tarde.
Mais uma noite.

Os nomes.

Mais uma noite.
Mais uma manhã.
Mais uma tarde.
Outra noite.
Outra manhã.

Estava na cozinha, distraída olhando para o sol refletido na poça dos paralelepípedos da rua esburacada. Senti uma pontada, depois mais uma na barriga. Tentei correr, mas não consegui. Então gritei. Gritei o mais forte que meus pulmões e cordas vocais conseguiram. Gritei até alguém chegar, então ficou tudo escuro até eu acordar no hospital.
-Ela acordou!
-Força, Sra. Davis! -fiz força.
-Mais força! -fiz mais força.
-Mais! -mais.
-Mais! -mais.
Ouvi um choro e tudo ficou escuro de novo.

Acordei. Olhei em volta e eu estava sozinha em um quarto todo branco. Olhei para baixo e meu barrigão não estava lá. Estava com alguma dor, mas nada que me fizesse sair de orbita. Comecei a me preocupar enquanto olhava para os lençóis encardidos.
-Enfermeira!
Uma mulher loira entrou no quarto ladeada por Sr. e Sra. Jones, na qual carregava uma trouxinha nos braços.
-É menino, minha querida. –disse um Sr. Jones sorridente de olhos azuis-avermelhados brilhantes por causa das lágrimas.
Sra. Jones trazia o menino com um sorriso doce e lágrimas emocionadas. Abracei a trouxinha e o olhei.
-Aposto que tem os olhos do pai. –disse em um suspiro apertado de saudade.
E tinha.

Como poderia saber que naquele 11 de dezembro, com o nascimento de um menino saudável e de bochechas rosadas, John, um homem de olhos castanhos e cabelos arruivados, sofrera um covarde atentado?
Ali mesmo no hospital, dois oficiais entraram no quarto simples e me entregaram a carta de óbito de John Henry Davis. Seu carro fora atingido por uma bomba pouco depois que parou para socorrer uma criança.
Pensara eu que os bons seriam mantidos seguros. Imaginara eu que não haveria injustiça enquanto não a praticasse. John fora bom demais e em troca, ele não voltaria para casa.
Descobri, quase uma semana depois, que John voltaria para casa sim, mas em uma urna preta e simples, carregada por oficiais de luvas brancas e cap verde. No cemitério, enquanto o padre rezava, eu me lembrava do meu John. Eu queria lembrar dos braços quentes, dos olhos castanhos, do bom humor matinal e do sorriso largo que ele tinha.
Envolvi o meu pedaço de John com um manto azul e esperei as pessoas colocarem as flores no túmulo do meu marido.

Lembrei de Hamlet.
“Agora estou sozinho.
Oh, que escravo miserável e campesino sou! Não é monstruoso que este ator aqui, apenas em uma ficção, em um sonho de paixão, possa forçar sua alma tão de acordo com sua imaginação que só de trabalhá-la toda sua expressão feneceu, lágrimas em seus olhos, distração em seu aspecto, uma voz embargada, e todo seu funcionamento provendo formas a sua imaginação?”

Sim, estava sozinha. Sozinha com o meu outro John, pedaço do meu John.
Os oficiais dispararam os tiros em honra ao meu marido, me entregaram a bandeira que cobria seu caixão e então eu me vi parada olhando todas aquelas pessoas se despedindo do meu John. “Porque é que você não ficou na droga do escritório cortando seu dedo esquerdo com o papel, John?” era tudo o que eu pensava.

A luz percorria as coisas, as sombras aumentavam e assim foi. Ainda estávamos em guerra, ainda íamos para os porões, ainda escutávamos o rádio.
Quando o rádio finalmente anunciou o cessar fogo, John tinha feito três anos. Três anos de que tinha perdido o meu John, mas que tinha ganho o meu outro John.
Três anos tentando não esquecer. Três anos tentando viver. E tudo o que eu tinha era o meu filho, o castiçal, o rádio e os livros, sem mais o porão nem a sirene.
Era um novo começo para a Inglaterra. Era uma nova forma de se viver finalmente.
 

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Esse conto é dedicado a Luiza Lopes que faz aniversário hoje. Eu sei o quanto você queria que eu terminasse esse conto.
Feliz aniversário, Ellie-Noëlle-River.

 
 
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